Quem nunca invejou a viagem alheia?

O Aurélio diz que inveja é o “desejo de possuir o que outro tem (acompanhado de ódio pelo possuidor).” O português não oferece uma palavra com o mesmo significado sem os parênteses, por isso inventamos a brega “inveja branca”. Ela sugere que a gente não tem ódio do amiguinho que tá tirando foto no aeroporto, mas que a gente queria estar no lugar dele. E eu defendo que isso não tem nada de errado.

Porque a inveja pode virar coisa boa.

No meu último passeio, fiquei tão maluca com o que estava vivendo que decidi compartilhar descobertas diárias no Facebook. No começo fiquei preocupada que as pessoas achassem chato ou que eu queria causar inveja. Mas decidi ir adiante, por motivos de foda-se. Quando me dei conta, vi que tinha mais um monte de gente legal viajando comigo. Comentando, torcendo, questionando, dando dica, fazendo piada. Percebi que, ao dividir de forma aberta o bom e ruim da viagem, o interesse e a curiosidade superaram a possível inveja e as pessoas embarcam na jornada. Isso é bom pra todo mundo. Mas eu normalmente estou do outro lado. Quer ver?

Esses dias, minha melhor amiga foi pra minha cidade favorita. Sacou os dois erros na frase? Minha e minha. A Aline e Barcelona são do mundo e, como esse não gira ao redor do meu umbigo, elas iam se encontrar sem mim. Me restava, numa tentativa desesperada de participar da festa, colaborar de algum jeito pra que esse encontro fosse incrível. Primeiro fui chamada pra opinar sobre o roteiro, já comecei a me animar. Aos poucos, eu tava procurando passagens. Depois, caçando eventos na cidade e descobrindo o que viria a ser o último show do Buena Vista na Espanha, em sua turnê de despedida. Quando percebi, já estava comemorando a compra do ingresso, a sorte na coincidência das datas, o otimismo na previsão do tempo. A inveja tinha ficado uma delícia e eu espelhava aqui de Curitiba o sorrisão dado em Barcelona, que você vê na foto ao lado.

Mas o que a inveja esconde?

Primeiro, acho importante lembrar que nossos rompantes de inveja não podem ser motivos pra autocondenação. Já tem uma galera julgando a gente o tempo todo, não precisamos nos juntar ao coro. Depois, vale pensar se esse sentimento é mesmo uma demonstração de egoísmo ou só um sintoma da nossa insatisfação. O problema é ver o outro mergulhando em alto-mar? Ou ver você mesmo no reflexo do monitor, trancado em uma sala, pensando em que hora do dia você vai aproveitar a vida também?

A real merda é que a nossa geração vive uma busca por sentido que não bate com as 8 horas do cartão-ponto criado lááá na Revolução Industrial. A vida, as pessoas, a comunicação, as relações, tudo mudou pra caralho nos últimos 90 anos, mas as maledetas 8 horas não! Continuamos medindo trabalho com o relógio e não com os olhos, privilegiando horas e não energia. As pesquisas sobre produtividade escancaram que o sistema está falido, mas ninguém sabe bem como substituí-lo. E a gente fica à deriva. Querendo produzir, mas de um jeito mais inteligente. Querendo conquistar, mas com outros objetivos. Querendo descobrir o mundo, mas tendo que guardar essa vontade pra usar, com sorte, em um mês do ano. Nos outros 11 meses, os outros viajam e nos resta torcer por eles, pra que aproveitem bem, que tragam histórias, que voltem felizes e que não fiquem chateados conosco porque, lá no fundo, os invejamos um pouquinho. 😉

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