Meu primeiro voo solo.

Uma colega na aula de espanhol me definiu esses tempos, entre os outros adjetivos fofos que ela lembrava em castelhano, como independiente. Ah, Lorena, como eu queria que você me visse agora. Sentada numa poltrona dura do Charles de Gaulle, à beira de um faniquito internacional. Os pilotos da Air France entraram em greve, tudo bem. Eu “ganhei” uma nova escala de 10 horas, tudo bem. O portão 2F não tem fumódromo ou comida que preste, tudo bem. Mas aí começaram as falhas na Matrix. E não tá tudo bem.

Se você não sabe, existe uma praga faraônica chamada Enxaqueca com Aura. Essa bosta começa a ferrar com a sua visão, como se alguns pedaços da imagem que você vê ficassem fora do ar, anunciado uma sensação horrenda que mistura fotofobia e a dor de parir um chifre em cada têmpora. Daquelas que fazem a pessoa chorar no pronto-socorro, incapaz de abrir os olhos, responder o próprio nome ou agir como um adulto mentalmente saudável.

Daí que essa porra começou a rolar quando eu tentava comprar uma água, e eu percebi que não conseguia ler o preço. Colei a cara na máquina pra ler €2 e, em posse da maldita garrafinha, dissolvi o único remédio que eu tinha. Então rezei pra ele funcionar porque a bosta do portão não tem farmácia, Lorena! Você tá me entendendo? Eu precisava desesperadamente deitar de olhos fechados, mas não podia, porque não havia uma puta de uma alma amiga pra cuidar das minhas coisas.

Não me entenda mal, Lorena, a culpa não é sua. Eu também acreditava na minha independência. Criada à base de Spice Girls e Beyoncé, pagando minhas contas, escolhendo meu uísque e encerrando reuniões, tudo levava a crer que eu sabia me virar. Mas ninguém me contou que viajar sozinha era outra história.

O que eu também não sei, aqui na poltrona dura do Charles Gaulle, é que nos próximos dias eu vou aprender a respirar nesse tipo de situação. Vou descobrir que não dá pra cair em cilada, mas às vezes vale a pena contar com a ajuda de um desconhecido. Que bons autores são sempre boas companhias, mesmo que pesem na mochila. Baguetes também. Que a solidão faz a gente observar melhor as coisas pra dentro e pra fora. Que, ao estar sozinho, você se permite conhecer mais gente legal e que esses gringos, por uma noite, podem ser meus melhores amigos. Que não tem problema ligar chorando pra mãe ou pro marido, porque ter com quem contar não é sinal de fraqueza e sim de sorte na vida.

Falando em sorte, o remédio acabou de bater, minha visão voltou ao normal e a cabeça dói só o suficiente pra me certificar que ela está ali. Além da mala, da mochila, do dinheiro, do passaporte e das chaves do cadeado que eu confiro a cada 90 segundos, numa neurose desenvolvida em algum lugar entre Curitiba e São Paulo. Mas, até o final da viagem, ela também vai passar. E eu vou concluir que, mesmo querendo muito quem eu amo do meu lado, eu não preciso. E querer é muito mais intenso, verdadeiro e libertador do que precisar. Acho agora que você tinha razão, Lorena, depois de viajar sozinha eu me sinto mesmo independiente.

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2 comentários Adicione o seu

  1. Solzinha que textos deliciosos esses seus 😉 Estão fazendo minha sexta muuito mais divertida!

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    1. mariannaslompo disse:

      Obrigada, amore! Fico feliz que você esteja curtindo. ☺️

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