As incongruências culinárias de uma viajante al dente.

 

Cê num tá 100% duro, mas a vida também não tá mole? Bem-vindo ao time de viajantes al dente. Uma turma que não precisa mais roubar bolachinha do albergue pra comer durante o dia, mas também não pode entrar num restaurante sem espiar o lado direito do cardápio. Posso estar enganada, mas me parece a fase mais delicenta de se viajar.

A fase dura é divertida, te leva a comprar uns kebabs suspeitos, a agradecer aos céus pelo Mc Duplo de um euro e a transformar a lixeira do albergue num balde de gelo pra esfriar a bera do mercado. Você ri, inveja o povo dos restaurantes, descola uns piriris, se apaixona pelo garçom que traz goró na faixa e descobre que é só sentar na grama ou descolar taças plásticas que a farofagem ganha ares de piquenique.

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Em 2008 a gente comia enquanto varria Paris com a bunda. ❤

Já a fase mole deve ser tranquilíssima. Não cheguei lá ainda, mas acho que dá pra ir naqueles restaurantes em que você paga pela comida e pela vista. Tipo de frente pro mar ou no alto de um arranha-céu. Também deve ser mais fácil porque você fica em hotel e todo dia rola aquele café da manhã continental que dá uma puta energia pro resto do dia. “I don’t know the question, but the answer is bacon”.

Já na fase al dente, você se obriga a planejar mais pra fazer o seu bolso e a sua gula virarem BFFs. E você se pega em meio a três grandes incongruências.

  1. Você vai de uma barraca a um restaurante estrelado num piscar de olhos. E é feliz em ambos.

Porque percebe que sabor não tem grife. O que muda de um restaurante que tá na San Pelegrino pra uma barraquinha de pad thai a 12 reais é o tipo de experiência que você tem, não necessariamente o sabor da comida. Claro que não é qualquer barraquinha nem qualquer restaurante, é preciso atolar até os joelhos em blogs e nos comentários do TripAdvisor pra encontrar as pérolas de cada lugar. Mas o bom é que aí você valoriza muito tudo o que come. Desvendando a baixa gastronomia, aproveita cada empanada bem recheada e cada curry bem temperado, porque sente que aquilo representa a realidade do país e lembra (do seu tempo de dureza) que tem todo o tipo de porcaria sendo servido por aí pelo mesmo preço. Na alta gastronomia, nem o farelo do pãozinho da entrada é desperdiçado. Tudo passa por uma degustação profunda e cada detalhe do lugar, das pessoas e dos pratos ficam gravados na memória. Vale fingir que sabe o que tá fazendo quando o sommelier traz o vinho e dar uma bochechada ridícula, vale voltar correndo do banheiro pra dizer que a pia é linda, vale até tirar selfie discretamente, amaldiçoando a falta de luz da câmera frontal, enquanto o garçon tá distraído.

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Subi na vida. Saí do chão e conquistei um banquinho. \o/
  1. Você deixa de comer onde está e passa a estar onde vai comer. E isso te leva mais longe.

Se você é guiado por um estômago plural, seus passeios também serão assim. Num dia você vai até as profundezas de Chinatown pra comer fried dumplings de um dólar e, no outro, vai no point mais hype do Brooklyn pra mandar um brunch com ostras e champagne. E assim você sai da tal zona de conforto, buscando novos sabores e encontrando, além disso, pessoas muito diferentes e lugares pouco turísticos. Ainda rola um efeito colateral interessante quando você volta pra casa: dá vergonha de não conhecer os cantinhos saborosos da sua cidade. É ridículo você ir até o Laos, atravessar a cidade a pé, cruzar uma ponte precária e subir uma ladeira no meio mato pra encontrar um prato de algas crocantes e, ao mesmo tempo, nunca ter andado meia quadra pra provar aquele restaurante barateza que fica ali na esquina.

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A felicidade no olhar de quem comeu uma dúzia de dumplings.
  1. Você às vezes come muito mal pra depois comer muito bem. E tá tudo bem.

Nossa turma al dente precisa economizar se quiser provar restaurantes fodões quando viaja e boa parte dessa economia tá no que a gente come aqui. Nenhum pão é duro demais nem há lata que não vire molho pra quem tá se aproximando de uma refeição histórica na próxima viagem. A gente tá nesse ponto lá em casa, comendo o que há de mais barato pra investir na aclamada cozinha peruana daqui uns dias. Numa janta aí rolou até um sopão da Knorr, daqueles super artificiais sabor miojo. Isso me fez imaginar todos os chefs dos trocentos programas de culinária que eu assisto me batendo com espátulas e fués sujos. Mas se é pra conhecer a comida do coleguinha Virgilio Martinez, que comanda o melhor restaurante da América Latina, talvez eles me perdoassem. Vai saber.

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Um sopão hoje, essa lindeza amanhã.

O que eu sei é que, como uma boa viajante al dente, tenho direito de seguir com as minhas prioridades malucas, escrevendo certo por ervilhas tortas. Porque lógica, bom senso e coerência são maravilhosos, mas eu prefiro ceviche.

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2 comentários Adicione o seu

  1. Camila S A Rickli disse:

    Muito bom!! Hahahaha… me identifiquei rs “Nenhum pão é duro demais nem há lata que não vire molho pra quem tá se aproximando de uma refeição histórica na próxima viagem”

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    1. mariannaslompo disse:

      🙂

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