Vale a pena viajar na viagem?

Não é de hoje que uma galera viaja pra ficar locôna. Mas, com o crescente poder de compra das gerações mais novas, as trippy travels se tornaram uma das maiores tendências pro turismo em 2017. Por isso, correndo o risco de soar como uma tia velha e chata, convido vocês a pensar meio sério sobre esse assunto.

Obs: os nomes nos exemplos abaixo são fictícios, porque não sou X9, mas as histórias são bem reais.

Antes de tudo, de que viagens a gente tá falando?

Enquanto antes a gente se referia basicamente a Amsterdam, agora se fala muito das viagens pra Amazônia, onde a Ayahuasca (apontada como o LSD dos millenials) atrai quem tá em busca de espiritualidade, autoconhecimento ou só de tirar uma pira. Mas, mais do que isso, estamos falando de todo tipo de rolê que passa por grandes cidades. Nas ruas de um bairro antigo em qualquer capital europeia, não faltam malucos chamando (nem tão) discretamente pros becos com o approach clássico: “cocaine, follow me”. No Peru, estão bombando uns rituais xamânicos meio lisérgicos, no Uruguai os space cakes.

Então, estamos falando do uso em viagem de qualquer substância que altera nossa percepção e não é o bom e velho goró. Tá, mas e qual é o problema? Nenhum. Cada um sabe de si, não vim aqui pra julgar ou criticar. Mas, com cada vez mais pessoas viajando pela primeira vez para fora do país, acho importante a gente discutir e pensar bem antes de fazer esse tipo de escolha que, como tudo na vida, tem suas consequências.

“Mas lá é legalizado”

Sim, isso soa como um bom argumento. Mas é mesmo da polícia que a gente precisa ter medo? O Carlos e o Pedro foram pra Amsterdam há um tempo e decidiram comer cogumelo. Estavam lá, curtindo uma pira, vendo a grama dançar e tals. Até que um se sentiu meio mal e eles resolveram voltar pro albergue. Amsterdam é um ovo e, mesmo assim, os caras conseguiram se perder magistralmente, passaram horas (que, contam, pareceram dias) em uma busca desajeitada e paranoica até descobrirem onde estavam. Acho até que a melhor coisa que podia ter acontecido com eles era mesmo a abordagem de um policial, que levasse os dois em segurança pro hostel. Então, ser “legal” não garante que a experiência seja legal.

“Mas é uma história pra contar”

Sim, e as histórias são hilárias. Depois que o tempo passa, tudo é engraçado, porque no fim deu certo. E se não dá? Essas versões a gente ouve pouco. A Bia, minha amiga, foi também pra Holanda há alguns anos e resolveu usar em uma semana tudo o que podia. Tomou chá, comeu umas paradas, fumou outras, foi pra Grayskull. Voltando pro Brasil, descobriu que estava grávida. Passou a gestação inteira morrendo de medo que o seu período fora da caixa tivesse prejudicado o bebê. Imaginem a aflição. O menino nasceu lindo, perfeito, mas ela sabe que poderia ter sido diferente. Hoje ela conta a história rindo, mas por nove meses não teve graça nenhuma. Valeu a pena?

“Mas é uma experiência nova”

Sim. E eu vivo falando que em viagens a gente precisa sair pelo menos uma vez da nossa zona de conforto. Adoro a sensação “estou me borrando de medo, mas ou eu faço isso agora ou vou me arrepender pro resto da vida”. Foi assim que eu me atirei numa duna da altura de um prédio com uma prancha na barriga. Mas eu estava lá, o tempo todo. Senti minhas pernas tremerem, o sangue sumir da minha cara, o coração sair pela boca. Eu vivi mesmo aquilo. Já quando a gente fala de droga, a ideia é justamente te tirar do eixo. Você está ali, mas sua consciência não está plena. A Ana e a Gabi foram esses tempos pra Montevidéu e resolveram comer um brigadeiro doidão. Pra começar, tiveram uma noite torturante, em que elas perderam a noção do tempo e acreditavam que nunca mais voltariam ao normal, destinadas a uma vida de mendigagem no Uruguai. Depois, a piração não passava. Acordaram apavoradas, ainda chapadas, não conseguiram relaxar durante mais um dia e ainda tiveram uns flashbacks na sequência da viagem. É uma experiência? É. Mas o jantar que elas perderam naquela noite também era, escolher uma excluiu a outra.

Então você é contra, sua careta?

Não. Outras pessoas viajam na viagem e dá tudo certo. Não há regra. Repito que cada um sabe de si. MAS SAIBA DE SI. Não existe essa merda de “você tem que fazer isso lá” ou “pra mim foi susse, pra você também vai ser”. Amsterdam é linda estando você chapado ou não, autoconhecimento você conquista tomando um líquido esquisito ou não. Faz o teu jogo. Se vai usar mesmo, se certifica que você lembra de verdade como voltar pro hotel, que não tá sozinho, que sabe onde buscar ajuda, que não tá perto de um precipício, essas coisas. E pensa bem se vale a pena o risco. Pessoalmente, acredito que viagem seja o melhor investimento que a gente faz na vida e eu quero estar bem acordada pra aproveitar cada retorno dele. 😉

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