Viajar dá vontade de ler.

Ler dá vontade de viajar.

A gente costuma pensar que aquelas conversas com estranhos em viagens são efêmeras ou superficiais, porque estamos falando com pessoas que não sabem nossa história e que jamais veremos de novo. Mas, de uns tempos pra cá, eu comecei a acreditar que é exatamente o contrário. Por não esperarmos nada daquele desconhecido, e sem a preocupação de como ele vai nos julgar no futuro, somos mais verdadeiros e nos abrimos inteiramente pro que ele diz.

Foi em uma conversa assim, despretensiosa, que um holandês aposentado mudou minha rotina. Depois de algumas horas de chope e diversão em uma esquina de Hanói, percebi que aquele careca simpático, que estava avulso bebendo na rua, atraía pessoas ao redor. Ele se divertia tão tranquilo sozinho, que as pessoas naturalmente se aproximavam dele com petiscos, histórias, risadas. A felicidade dele era um imã e, no fim da noite, eu fui atraída também. Tomei coragem (com mais uns goles de chope) e perguntei qual era ao segredo dele. “Eu tenho pressa em ser feliz, me indica o atalho?” Ele riu da minha pergunta, desconversou, depois conversou. Contou de um jeito humilde que, entre alguns caminhos que trilhou em sua busca (meditação, terapia, empatia), um deles era simples, mas muito eficaz: a leitura. Mas, nas palavras dele, não vale só internet, tem que ser livro inteiro. Nossa felicidade é proporcional ao volume e à qualidade da nossa leitura.

Holandês.jpg
Sente a vibe do cara

Eu tava meio bêbada, meio maravilhada com o Vietnã, achei que tinha descoberto a roda. No dia seguinte, chata e sóbria, pensei: “tá, mas eu já sabia disso”. Sabia mesmo? O que eu tava lendo de bom? Com que frequência? Depois de pensar um pouco, percebi que lia muito todo dia: e-mail, post, comentário, notícia, briefing, mensagem, mas e o tal do livro inteiro? Eu tinha lido uns poucos naquele ano e não tava muito preocupada em abrir espaço na minha rotina. De storytelling, me bastava Netflix e Youtube.

Mas o holandês não saía da minha cabeça. Por que não tentar? O que me custava investir de verdade na leitura? Foi assim que, com algum esforço, eu espremi esse hábito na minha rotina. Aos poucos ele foi se esparramando. Antes de dormir, no horário do almoço, no caminho pro trabalho, no sábado de manhã. E o que começou numa viagem, também me fez querer viajar mais e mais. Ler sobre lugares distantes me fez conhecer culturas diferentes, entender melhor a história de cada região e ficar ainda mais curiosa. Não acredita? Eu separei três exemplos da minha levíssima bagagem literária que podem te fazer viajar também. 🙂

Itália: Série Napolitana, Elena Ferrante

images.livrariasaraiva.com.jpgSão quatro livros e a gente termina achando pouco. Eles contam a vida de duas amigas que nasceram na década de 50 na periferia de Nápoles (comece por “A Amiga Genial”). A narração é linda, delicada e grosseira ao mesmo tempo, te prende o tempo todo e tem como pano de fundo a história da Itália e da Europa no último século. Cenas de violência e de entrega, do país e dos personagens, explicam porque a cidade com vista pro Vesúvio tem fama de ser perigosa e, mesmo assim, você se sente à vontade lá. Dá até pra entender de onde vem aquele jeito espalhafatoso, amável e agressivo dos italianos. Pra muitos de nós, descentes dessa região, é como amarrar pontas soltas na vida. Eu li depois de passar semanas na região de Nápoles e, de repente, tudo que eu vi e ouvi lá fez sentido.

Peru: Tia Júlia e o Escrevinhador, Mario Vargas Llosa

915437.jpgPensa num livro delícia de ler. O Llosa já ganhou Nobel de Literatura e foi um cara bem importante na história recente do Peru, com grande influência social e política. Mas nesse livro, que é em parte autobiográfico, o que atrai um coração viajante não é o contexto histórico, e sim o dia-a-dia do peruano. Isso é importante porque a variedade de atrações no Peru faz com que os turistas corram alucinadamente entre uma cidade e outra. Sobra pouco tempo pra perceber a rotina, o humor, o tipão do povo de lá. E nisso, o Tia Júlia é perfeito, misturando regionalidades com a cultura pop peruana das radionovelas. Aliás, em Arequipa tem a casa em que ele nasceu, que é como um museu moderninho da vida e do trabalho dele. Vale muito a pena. Eu li esse livro durante a viagem pelo Peru, em espanhol, e foi uma imersão divertidíssima.

Portugal: A Máquina de Fazer Espanhóis, Valter Hugo Mãe

maquina-fazer-espanhois.jpgUm dos livros mais lindos dos quais já tive notícia. Simples e delicado, ele conta a história de um senhor português que é colocado em um asilo. Com esse senhor, dá pra aprender um bocado sobre várias coisas da vida: finitude, resiliência, amor, amizade, solidão. Mas o que eu não esperava é que ele me explicasse de onde vem a tristeza dos portugueses. Essa melancolia, o fado arrastado, o humor meia bomba, sempre foram características que me afastaram de Portugal. E era pura ignorância, era só porque eu não entendia. Não sabia do peso que a ditadura de Salazar teve na vida e na construção da identidade do país. Na verdade, ainda não sei, talvez nunca saiba. Mas já consegui vislumbrar. E foi o suficiente pra mudar meus planos de viagem. Esse livro eu li antes de conhecer Portugal e me fez querer ir logo pra lá, conhecer de verdade os portugueses.

E você, já leu algum livro que deu vontade de viajar?

Ou que te fez reviver uma viagem? Ou viajar melhor? Seja legal e compartilhe com a gente nos comentários ou no Facebook. Quem sabe a sua indicação, como a do holandês lá em Hanói, mude a vida de alguém também. 😉

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