O Machu Picchu tem novas regras e restrições de visitação

E eu peço um minutinho da sua atenção antes de sair reclamando.

Estive no Machu Picchu em setembro do ano passado. Fiquei o dia inteiro lá. Pela manhã fiz o rolê com o guia, à tarde brinquei com lhamas, deitei na grama, explorei outros cantos e perambulei por aquele cenário surreal. Foi foda.

Foda também é que a partir do dia 1o de julho a coisa vai mudar. Se antes o ingresso dava direito ao dia todo, agora ele só permite a visitação em um dos turnos (das 6h às 12h ou das 12h às 17h30). Você até pode ir no outro turno, contanto que compre outro ingresso. Além disso, andar sem rumo deixa de ser uma opção, pois os turistas só poderão percorrer um dos três “caminhos aprovados”, em um roteiro mais limitado. Menos tempo, menos liberdade e, na real, eu achei isso bem bom.

Claro, sua babaca, você acha bom porque visitou o Machu Picchu antes dessas regras mimimi”, dirão os mais revoltados. Pode ser. Talvez eu ficasse chateada se os limites fossem estabelecidos bem na minha vez. Mas é justamente pra que você não se sinta assim que eu trouxe alguns argumentos.

Podemos começar com os dois motivos mais egoístas: você vai esperar menos e ver menos gente nas suas fotos. Em alta temporada, a fila pra subir podia levar duas horas e a entrada no parque mais uma hora, porque todo mundo queria entrar ao mesmo tempo. Agora, com um pouco mais de ingressos e o galerê dividido em dois grupos (3.000 de manhã de 2.600 à tarde), a coisa ficará mais organizada e rápida. Além disso, era difícil tirar uma boa foto (e até andar) com tanta gente circulando simultaneamente. Boa parte dos meus registros parecem ser de um show e não de uma cidade sagrada. =P

Mas, o mais importante: eu vim te lembrar que essa decisão foi tomada pela UNESCO em parceria com o Governo Peruano pra proteger a estrutura da Cidade Perdida. Ela foi construída há mais de 500 anos e, embora a gente esqueça, com o passar do tempo a pedra também desgasta, cede, quebra. Além disso, era uma cidade feita pra receber algumas centenas de incas e não 5 mil turistas. É muita gente pisando e pesando ao mesmo tempo em um tesouro no alto de uma montanha! E, o pior, muitos turistas não mostram respeito nenhum pelo local e certamente topariam trocar umas pedras de lugar pra tirar a melhor selfie. Não adianta culpar a fiscalização também, porque a desproporção impede o cuidado. O parque é cheio de guardas, mas o volume de gente sem noção (em viagens e na vida) é superior sempre.

Se tudo que é bom tem uma dose certa, o turismo não poderia ser diferente.

Esse problema não é só do Machu Picchu., outras cidades estão enfrentando sérios problemas com o turismo invasivo. O caso mais famoso é de Veneza, cujo aumento de visitantes, cruzeiros e preços tem sido tanto, que alguns especialistas acreditam que até 2030 o percentual de nativos na cidade chegará a zero! Santorini também tem se complicado com os turistas e vai limitar a 8 mil o número de desembarques dos navios que chegam todo dia. Pior são os lugares que, por falta de grana e estrutura, não têm como criar esses sistemas. Nas pirâmides de Gizé, no Egito, é uma zoeira: você pisa onde quiser, sobe onde dá na telha e ainda guarda umas pedras na mochila, se for um completo imbecil. Dá vontade de chorar. Já com as novas regras e todo um conjunto de ações programado para proteger o Machu Picchu nos próximos 20 anos, isso não deve acontecer por lá.

Por isso repito: que bom. Curtir aquele lugar sem pressa foi demais, mas te juro que o que fez minha experiência ser inesquecível não foi o tempo que eu passei lá dentro, mas sim a intensidade do que eu senti. Um sentimento que eu desejo a muito mais gente. E isso só vai ser possível se o parque continuar seguro e aberto à visitação, não de outra montanha, não de helicóptero, não de fora. Ele não pode ser visto, precisa ser vivido. Na sofrência dos degraus enormes, na confusão do ar rarefeito, na loucura de estar à beira do precipício, enfim, na tal “energia do Machu Picchu”.  Por isso, mesmo que pareça uma chatice, pense que as mudanças são uma boa notícia. Vá e curta ao máximo o tempo que tiver, seja o quanto for. E, por favor, não se sinta um azarado por ir depois das novas regras. Ao chegar na Porta do Sol você vai concordar comigo: quem pisa lá já é uma pessoa de sorte.

Ps: se quiser conhecer a lista de locais que sofrem com excesso de turistas, pra evitar nas próximas férias, espia aqui.

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